Eu não vou para a Parada Gay desde que criei certa consciência social. Se eu penso bem sobre o assunto a parada gay não serve pra absolutamente nada.
Aí vocês podem argumentar que é pra gente ter mais visibilidade, pros héteros saberem que estamos aí. Ok, e DAÍ? É bem óbvio que existimos, que estamos aqui na atividade. Somos o “filho bicha da vizinha do 17”, “a sobrinha mulher-macho do Seu Antônio da padaria” e o “afilhado que se veste de mulher da dona Tamara”. Nossa existência é bem clara.
“Ah, mas é pra gente lutar pelos nossos direitos”, anham Cláudia, senta lá. Como exatamente você acha que ir pra uma avenida abarrotada de gente dançando, se agarrando e enchendo a cara ao som de “I Will Survive”, poderia ser definido como “lutar pelos nossos direitos”? Olha, no máximo isso aí garante uma visibilidade, porque é difícil você desviar os olhos daquele arco-íris que se forma.
E ainda assim eu vos pergunto: que visibilidade é essa? Uma massa de gente bebendo, se pegando sem pudores, trocentos travestis vestidos de “Mulher Maravilha” com a bunda de fora, mais um punhado de meninas de 13 anos que supostamente foram “estudar na casa da Renata Gonçalves”, o cara que vende cerveja, que nem é gay, mas ta fazendo seu pé-de-meia, as bichinhas libélulas praticamente purpurinando enquanto voam pela parada... É assim que vocês querem ser vistos? Porque, particularmente, não quero que pensem em travestis com bunda de fora quando pensarem em mim.
Quer fazer um teste? Pensa sobre uma “Passeata Pró-Aborto”, sabe o que você vai imaginar? Um monte de mulheres segurando cartazes, caminhando e pedindo pela legalização do aborto. Agora pensa numa “Passeata Contra o Câncer”, não vem a imagem de várias pessoas caminhando com cartazes, incentivando a prevenção do câncer e distribuindo aqueles panfletos? Agora pensa numa “Parada Gay” e me diz se não te vem na cabeça trio-elétrico, travesti de bunda de fora, meninas de 13 anos que escapuliram de casa pra se pegar e as bichas purpurinadas, todos juntos enchendo a cara com a cerveja de um tio que nem é gay, mas entrou lá pra faturar.
Não, eu não tenho nada contra travestis, nem contra usar o estudo na casa da Renata Gonçalves como desculpa para sair de casa, nem muito menos tenho algo contra o cara que ta vendendo cerveja. Eu só não vejo um ponto nisso. Se tem gente que vai pra parada com a melhor das intenções? Claro que tem! Mas a maioria só vai pela festa. A grande maioria das pessoas que estão ali não fazem idéia do grande feito que é a liberdade de poder ir pra uma rua e praticamente berrar na cara de todos um “EU SOU GAY, PORRA”. A grande maioria não sabe o que foi Stone Wall, não conhece Cassandra Rios ou faz idéia de que se estivessem no Iraque iriam morrer por enforcamento.
A parada gay perdeu o motivo de ser para se transformar em uma grande festa. Um grande dia de libertação para os gays onde a gente pode se agarrar no meio da rua porque “Ah hoje é dia de parada”. Não importa se tão passando velhinhas ou crianças por perto, porque é dia de parada e em dia de parada a gente pode TUDO e todo mundo vai ter que engolir.
A parada bate recorde de pessoas presentes, todo mundo feliz sob a bandeira do arco-íris. Depois esse povo todo volta pra casa, pro apartamento, pra dentro do armário, pro anonimato e para sua posição de minoria na sociedade. Mas, ei! Ano que vem vai ter outra parada gay, outra festinha MARA, pra você se agarrar, mostrar a bunda, purpurinar e ter o gostinho de liberdade por um dia INTEIRO.
Talvez, como diria a Xuxa no Twitter, esse “É O NOSSO JEITINHO” de lutar pelos direitos. É, talvez, mas é um jeitinho que prefiro não ter.